sexta-feira, 14 de abril de 2017

A SEXTA-FEIRA SANTA NA CASA DE MINHA AVÓ


Minha avó já amanhecia com a cara séria e taciturna logo pela manhã. Quem a via daquele jeito, toda acabrunhada, exigindo a obrigação do silêncio, diria que algo muito sério havia acontecido. Logo ela que sempre fora uma mulher jovial, divertida e brincalhona o tempo todo, mas na Sexta-feira Santa era para ser um dia triste.

- Mataram o Nosso Senhor! – Dizia ela solenemente encurvada, com o terço preto nas mãos trêmulas e a face confiscada por uma pronunciada e profunda melancolia.

Eu, meu irmão e minha irmã, ainda pequenos, ficávamos assustados com aquela transformação de minha avó. Alguém havia morrido realmente. 

Na casa dela, nesse dia fatídico e proibitivo, minha avó fazia várias recomendações que tínhamos que seguir à risca e em silenciosa obediência. 

Ela dizia, por exemplo, que se numa casa estiver treze pessoas e todas se sentarem na mesma mesa do almoço, uma delas — a que for mais velha ou a mais jovem — morrerá ao cabo de poucos dias. Isso era assustador. Nós, ainda meninos, tínhamos tanto medo que preferíamos comer sentados no chão, só para garantir. 

Outra coisa que ela dizia era que na Sexta-feira da Paixão não se pode cortar as unhas de jeito maneira! 

- Porque faz unheiro, a pessoa fica com dor de dentes ou as juntas dos dedos podem até mesmo inchar. Só a madrinha de batismo é que pode cortar as unhas de uma criança, mas é melhor que não corte. - Nesse dia, minha avó escondia todas as tesouras e alicates de unha da casa. 

- Cuidado para não varrer a casa. Faz mal. Pode ficar com o braço torto, porque vai estar varrendo os cabelos de Nosso Senhor. Ave Maria! – E se benzia toda.

- Também não pode cortar nem se chupa cana. 

- Viajar, nem pensar. Também faz mal e é muito perigoso. Conheci um homem que teimou com a mulher, viajou na Sexta-feira Santa e morreu num desastre.

- Também para os homens que são muito teimosos e não acreditam nas coisas sagradas, não podem fazer a barba, pois não se deve olhar no espelho, pois é agouro.

- Também não pode rir. Quem ri na sexta-feira chora no domingo. – Dizia taxativa. 

- Para as mulheres que têm o mesmo nome de Maria não devem cortar o cabelo, nem podem se pentear, porque Nossa Senhora Maria Santíssima não se penteou. Se alguma mulher que se chame Maria se pentear nesse dia, vem o Diabo e carrega ela num pacote. 

- Socar os temperos no pilão para fazer alguma comida, não pode. É proibido. 

- Quando fizer o café, tem que ser tomado amargo, porque os soldados romanos deram fel amargoso ao Nosso Senhor Jesus Cristo – para sempre seja louvado.

- Se pular uma janela na Sexta-feira Santa vira um cachorro. 

- Se lavar roupa na Sexta-feira Santa a água se torna suja de sangue e estraga a roupa.

- Não pode falar nome feio que fica com a língua presa e os dentes caem. 

- Não pode usar o martelo, nem pode pregar prego, pois está martelando Jesus na cruz. 

- Não pode negociar. Quem vender alguma coisa na Sexta-Feira da Paixão, está vendendo Nosso Senhor Jesus Cristo.


- Não pode usar o moinho de jeito nenhum. Se moer milho, em vez de sair fubá sai é o sangue de Jesus. 

- Também não se doar nenhuma roupa, porque os demônios estão a postos e podem fazer feitiço com as roupas.

- Também não se pode dançar, nem cantar música de carnaval ou fazer alguma festa pois pode virar mula-sem-cabeça ou lobisomem. 

- Se andar para trás ou deixar a chinela emborcada para cima está agourando os pais. Também não pode dormir antes da meia-noite.

Ficávamos ali parados, sentados na varanda, sem nem poder se mexer porque tudo era proibido. Minha avó ficava de olho na gente e de vez em quando nos lembrava de mais uma outra proibição que ela ainda não tinha dito. 

Ficávamos ali parados, sentados na varanda, esperando o sábado de aleluia, pois sabíamos que se acabavam as proibições e era dia de alegria. 

Jesus ressuscitou.



sexta-feira, 7 de abril de 2017

O CABRA QUE LEVOU UM MÓI DE CHIFRE E SE AMANCEBOU-SE COM UMA MALA VÉIA




Pois é, o Chiquim de Nóca, se casou-se com uma moça vistosa! Pense numa cabôca arrumada!

Ela era gostosa mermo? Ouvi dizer.

Vixe! Marminino! Era tão boazuda, a muleca, que num tinha uma roupa que fosse que coubesse nela! Ela só vestia roupinha curta, mostrando os balengotengo! Tudo à mostra! Os zôme virava as cabeça e quase torava o percoço pru mode olhar pra danada!

E o Chiquim de Nóca, comparecia no serviço direitim ou num dava no couro?

Aí eu já num sei! Mas ouvi dizer que lá pras bandas dos lados do Peixe Gordo, tinha um vaqueiro bem afeiçoado, todo reluzente, cheio do cobre, dentede ouro, todo vestido de gibão de couro de bode, que arrebatou o coração da muié do Chiquim de Nóca.

Vixe! Agora lascou! E o que aconteceu?

Pois é, a muié fugiu com o vaqueiro reluzente e deixou o Chiquim de Nóca chorando pelos cantos, chêi de chifre!

Êita! Foi mermo?

Pois foi! Entonce, o Chiquim de Nóca endoideceu. O pessoal diche que depois dele levar o mói de chifre, o hôme perdeu as estribeiras. O que num é pra menos!

Vixemaria! O que aconteceu?

Pois o hôme se apaixonou por uma mala véia que ele tinha em riba do guarda-roupa. Ficou se abufelando com a mala véia, como se fosse uma muié de verdade. Pois ele beijava a tal da mala até na boca! Já imaginasse?

Valha meu santontôin! Pense num mói de chifre inviezado!

Pois ele abaicava a mala véia com gosto de gás. Quando ele saía de casa, guardava a mala véia em cima da cama e ainda dava um beijim de despedida, como se fosse mermo uma muié.

Pois num é que um dia, a mãe dele, sabendo dessa arrumação, foi lá na casa dele quando ele não tava, pra acabar com aquela marmota e deu fim na mala véia! Eu soube depois que me disseram, que a mãe dele diche que a mala véia fedia mais do que as cuecas do cão dos infernos! A mãe dele tocou foi fogo na tranqueira!

Êita do estrupício medonho!

Bote estrupício nisso! Aí quando ele soube que a mãe dele tinha dado fim na mala véia, que ele dizia que era a mulher da vida dele, perdeu o resto do juízo e saiu correndo nu no mêi dos matos e os cachorros correndo atrás!

Viuxe! Tem hôme que num aguenta levar chifre que perde a rabiola!

Eche negóço de chifre num existe não. É coisa que botam na nossa cabeça!

Aí dento! Chifre é igual a consórcio, quando mesmo se espera a gente é contemplado!

Pois falando em chifre, eu vô pra casa que é pru mode eu vê a muié. Sabe lá se num aparece um vaqueiro reluzente deche que abaicou a muié do Chiquim de Nóca?

Valha mindeuso! Ramo simbóra!



sábado, 25 de março de 2017

QUANDO CHOVE NO SERTÃO



Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.


O inverno chegou.







Obs: A propósito – não sei se alguém percebeu – o entardecer descrito foi intencionalmente adaptado de José de Alencar em A Prece do romance O Guarani: …”Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.

Era Ave-Maria. Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite”!

sexta-feira, 10 de março de 2017

A FOME DO CHICO DON-DON



Chico de seu Don-Don era um desses minino réi do buchão, amarelo impambado, mais magro do que piolho de peruca. O pai dele, seu Don-Don, tinha uma barraquinha de frutas e verduras no mercado e todo dia, o Chico tava lá ajudando o pai a descarregar os caçuás do lombo dos jumentos que vinham dos sítios e fazendas. 

O Chico era conhecido por todos no mercado como bucho de esmeril. Não escapava nada que não pudesse comer. Comia banana e manga com casca e tudo. Raspava a quenga do coco até ficar bem lisinha, melancia então, o esfomeado traçava umas quatro por dia. Rapadura, cocada, quebra-queixo, Martim-da-vila, pé-de-moleque, alfenim, moreninha, paçoquita e tudo o que era doce, o esfomeado tinha os bolsos cheios e ficava ali só beliscado, sempre com a boca cheia. 

- Pai, tô cum fome! Posso ir merendar lá na banca da dona Jacira?

O pai olhava pro Chiquim com o olhar atravessado.

- Vá, mas volte logo que eu preciso de você aqui pra me ajudar com a clientela! Tu num acabou de comer um monte de coisa aí, que eu vi? Ôxente! Pense num minino esgalamido! Só pode ter puxado pro lado da mãe!

Chico num contava até três e já tava lá na banca da dona Jacira.

- Valhamindeus! Chegou o Chico Don-Don! Vai acabar com as comidas da minha banca! – dizia dona Jacira numa gargalhada. - Que é que tu rái cumê hoje, bicho malassombrado?

- Dona Jacira, bote aí sem pena, duas cuias de cuscuz-com-leite, quatro batata doce, mêi pão cum ovo, duas tapiocas cum leite de coco, duas bruacas e pra beber, bote um litro de suco de murici. E avia que eu tô cuma baita fome!

- Diabéisso?! Tu rái mermo cumê tudo isso? Diabo de fome doida é essa, minino? Parece que vem lá das brenha dos flagelado da seca do Quinze!

- E o que é que a senhora rái fazê pro almoço? – ainda perguntava Chico Don-Don com a cabeça já enfiada no prato de cuscuz-com-leite.

- Valha! Num sei como eche minino num morre impanzinado! Isso aí num engorda é de ruim! – dizia dona Jacira, gargalhando.

Chico Don-Don virou chacota na cidade inteira e por onde passava o povo gritava uma infinidade de apelidos, como bucho de esmeril, come-come da Estrela, boca de caçapa, boca de surrão, entre muitos outros, mas era uma coisa que o Chico Don-Don não se importava nem um pouco. O que ele queria mesmo era encher o bucho. 

Durante um período de seca muito grande, a comida se tornou escassa e isso abalou Chico Don-Don para todo o sempre. Quando cresceu perdeu o juízo completamente, e passou a vasculhar latas de lixos e sarjetas em busca de qualquer coisa que pudesse comer. Vivia como um bicho a procurar miudezas fora de açougues e lutava até com cães vadios por pedaços de carne. Ele ficou gravemente doente, e suspeitava-se que se sentia mal por ter comido um animal morto que supostamente ele teria engolido sem mastigar. Morreu um mês depois de diarreia exsudativa, após uma complicação causada por uma obstrução intestinal grave. 

No leito de morte, ainda suplicava por comida.





quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

AS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DO PADRE CÍCERO ROMÃO




 Ouvi certa vez de um cantador de viola:

“Padim Ciço andava muntcho
No esfôço da união
Todas as vez que ele andava
Os romêro observava
Que ele num pisava no chão”.


Em torno da polêmica e carismática figura daquele padre baixinho de olhos azuis, começou a se desenrolar um monte de histórias fantasiosas e mirabolantes, passando de pai para filho, num redemoinho de narrativas contadas e cantadas nas varandas e nos sobrados dos sertões, no meio das caatingas, na roda das fogueiras dos tangerinos, e que cada vez que eram repetidas, sempre se aumentava um ponto. Quase todo sertanejo sabe uma dessas histórias de cor e salteado e conta como se fosse a mais pura verdade, inclusive dizendo que ouvira do pai, da mãe, dos avós, bisavós, tataravós ou de algum viajante andarilho que dizia ter conhecido pessoalmente o Padre Cícero Romão e por aí vai. Agora começa a história.

O ALMOÇO DE DOMINGO

Conta-se que, certa vez, um coronel abastado convidou o padre Cícero para almoçar na fazenda dele. Dizia-se que o padre nunca recusava um convite para almoçar, fosse de um simples e pobre agricultor ou até mesmo de um rico e abastado coronel cheio dos cobres.

Por volta das onze e meia da manhã, chegou à casa paroquial, um vaqueiro da parte do coronel, a fim de levar o padre Cícero para o almoço na tal fazenda, conforme estava assim combinado. O fato é que o padre Cícero havia esquecido o compromisso firmado com o coronel e já teria almoçado bem cedo. No sertão daqueles tempos, como muitos de nós já sabemos, o almoço era servido normalmente entre às nove e dez horas da manhã. Bastante constrangido com o esquecimento e sem querer fazer uma desfeita com o anfitrião, o padre pediu ao vaqueiro que o aguardasse, pois ele só iria “desalmoçar” e não demoraria muito.

O vaqueiro ouviu aquilo sem entender muito bem. Que diabo era “desalmoçar”? Encolheu os ombros, consultou o relógio de algibeira e viu que já era quase meio dia, mas não se atreveu a apressar o sacerdote.

O padre Cícero voltou então bastante animado, ansioso para ir ao lauto almoço na fazenda do coronel. O vaqueiro consultou mais uma vez o relógio e para seu espanto, marcava ainda dez horas da manhã. O padre Cícero vendo a cara de surpresa do vaqueiro, perguntou:

- Que foi que houve? Estamos atrasados ou adiantados para o almoço?

-Ôxente, meu padim pade ciço, pois eu jurava pela hóstia consagrada que já era quase meio-dia, mas o meu relógio ainda tá marcando dez horas. E olha que esse relógio é dos bons e foi fabricado pelo Mestre Pelúsio! Não estou entendendo mais nada!

O padre Cícero sorriu. Tomou a mão do vaqueiro e disse bem sério.

- Há coisas neste mundo que nunca haveremos de compreender. Essa é uma delas. O tempo voltou atrás, simplesmente. O seu relógio está funcionando perfeitamente, afinal foi feito pelo Mestre Pelúsio. O tempo é que mudou.

Depois desse dia, o vaqueiro maravilhado com o milagre, se dispôs a contar aos quatro ventos, a história de que o padre Cícero Romão “desalmoçou” e voltou no tempo para poder almoçar de novo na casa do coronel.

Padre Cícero era um homem de palavra. Se ele prometesse uma coisa, era certo. Ele primava pela honradez e pela amizade. Era prego batido e ponta virada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O BARÃO DO CRATO E SUA PAIXÃO INFAME ENVOLTA EM SANGUE E DOR

O sobrado do Barão do Crato e a Igreja Matriz de Icó
Bernardo Duarte Brandão já era homem feito quando voltou da Europa, depois de longa temporada. Robusto e arrogante, com trejeitos finos, acostumado com os ares parisienses, achou a cidade uma miséria de tão provincial, que quase lhe embrulhou o delicado estômago europeu.

O cheiro de terra e poeira, o odor do estrume do gado e a secura do tempo, por certo, deve ter-lhe dado terrível arrependimento de ter voltado a mando do seu pai, rico fazendeiro e senhor de terras e escravos da Ribeira dos Icós.

Ao chegar, os escravos de seu pai vieram ao seu encontro, apenas com o intuito de ajudá-lo com a bagagem. O jovem mancebo, enfunado de orgulho e soberba, empurrou os negros com tanta fúria, que os jogou violentamente contra as estacas pontiagudas da porteira da fazenda. Os escravos apenas sorriram, como se aquilo fosse apenas uma pilhéria típica dos moços ricos. Sorriram com aquele sorriso subserviente e humilde, típico dos mansos.

- Não toquem em minhas coisas da Europa! – esbravejou com acentuado sotaque francês, vociferando como um animal raivoso. Ali, naquele momento, já se ia demonstrando a sua aura cruel de um desalmado abusador de escravos. Mas é bom lembrar de que a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.

Ele falava o tempo todo dos tempos em que morou na Europa, de como tudo lá é diferente, de como as pessoas são civilizadas, brancas, louras, olhos azuis e de como lá, as pessoas certamente são mais bonitas e mais elegantes do que aqui, nesta província miserável. Tudo que ele falava, sempre vinha a comparação com a Europa, que ele sempre se referia por “lá”, como se falasse de um mundo mágico e maravilhoso, como se um paraíso na Terra, fosse.

- Lá, não se come açúcar, nem sal, senão muito pouco! Também não se toma café, por causa dos dentes. Doces então, nem pensar! – dizia ele, com empáfia, aos bajuladores que o cercavam com vergonhosa adulação. – Lá, o sol é muito leve e o clima é sempre ameno, por isso a nossa pele é assim tão bela! – vangloriava-se com repugnante prosápia.

Passaram então muitos dias da chegada do esnobe falastrão. Mal sabia ele que o destino lhe reservava a arrebentação de uma dor lancinante e cruel que lhe iria consumir a sua pobre alma até os estertores da morte.

Quando ele fora mandado para a Europa, a fim de estudar numa das mais conceituadas escolas do Velho Mundo – que era o desejo de seu pai, que queria ver o filho formado e retornasse à sua terra, transformado em um proeminente doutor -, deixou aqui sua irmã, ainda uma menina. Quase não a conhecia, sequer se lembrava dela. O pai promoveu então um jantar para que os dois irmãos se conhecessem, já que passaram muitos anos separados pelo mar imenso. Quando Bernardo viu Maria do Rosário, sua irmã pura e singela, sua pobre alma indecente se inflamou de paixão avassaladora. Não pôde se conter diante de uma mulher tão bela e deixou-se ser encarcerado naquele desejo proibido, querendo ele mesmo acreditar que ela também o desejava e o amaria como um homem e não como um irmão. Adoeceu febrilmente e sofreu de uma dor inclemente e devastadora a partir daquele encontro.

Sigmund Freud em 1927, escreveu em seu livro Die Zukunft einer Illusion, que “...Há numerosos indivíduos civilizados que recuariam aterrados perante a ideia do assassínio ou do incesto, mas que não desdenham satisfazer a sua cupidez, a sua agressividade, as suas cobiças sexuais, que não hesitam em prejudicar os seus semelhantes por meio da mentira, do engano, da calúnia, contanto que o possam fazer com impunidade”.

Em 14 de setembro de 1866, recebeu do então Imperador dom Pedro II, o título de Barão do Crato e tornou-se um importante chefe político. Não podendo desposar a irmã e sofrendo com o fascínio de uma paixão proibida por Maria do Rosário, tornou-se um homem cruel e sanguinário, que descontava sua fúria incontrolável nos mais humildes – seus escravos – torturando-os até a morte. Implacável, o próprio Barão, pessoalmente, martirizava e afligia, impiedosamente, torturando-os de tal maneira, pendurando-os vivos pelas costelas, até ver correr-lhes o sangue abundante e viscoso, por conta das chicotadas e suplícios cruéis dos anéis de ferros, arrancando-lhes os dentes e a língua, em uma sequência aterrorizante de lamentos, vagidos infernais e dor. É sabido que muitos negros foram objetos de tortura e muitos, assassinados por conta dos terríveis castigos executados impiedosamente pelo Barão, e que depois de satisfeitos seus desejos sanguinários, os corpos eram jogados em covas rasas no quintal de seu sobrado, e largados esquartejados nas margens saibrosas do Rio Salgado.

Apesar da imensa riqueza, o Barão tornou-se um homem triste, solitário, embora temido por sua lendária crueldade, avesso ao convívio social, sempre envolvido em disputas, em meio a arengas e intrigas políticas. A paixão amaldiçoada por sua irmã Maria do Rosário o consumiu impiedosamente. Diz a lenda que ele próprio foi ao Vaticano e que suplicou ao Papa Pio IX a bênção papal para que se realizasse o matrimônio com sua irmã, negado veemente por sua Santidade, é claro.

Morreu em Paris, no ano de 1880 aos 58 anos, só, doente e abandonado. É pertinente que não se sabe o quanto de tudo isso possa ser verdade, mas o diretor de cinema John Ford escreveu certa vez que “Se a lenda for mais interessante que a realidade, publique-se a lenda”.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

AS MAQUINAÇÕES DO MAL




Hesíodo era um homem feio. Magro, tinha um andar oblíquo, o lombo encurvado, como quem carrega um peso nas costas. Tinha a face escaveirada, desdentado, com a pele amarelada como a de um sapo e ainda por cima, mancava de uma perna desde o nascimento, pois havia nascido a fórceps, como quem que não quisesse ter nascido.

Desde criança fora abandonado pelos pais, jogado de casa em casa, crescendo ora com tios, ora com vizinhos, e algumas vezes na rua. Mesmo assim, aprendeu a arte da ourivesaria e mantinha um pequeno quiosque em um shopping da cidade, onde além de relógios e joias, consertava quase qualquer coisa que as mãos caveirosas e pálidas tocassem. Por conta disso, era grande o vai e vem de pessoas em busca de seus serviços.

Sempre às dez horas da manhã, deixava o quiosque com um funcionário e saía para passear pelo shopping, conversando com um e outro, olhando as vitrines e falando entre jornais, sobre política e futebol.

Era um homem muito culto. Na solidão das noites lia livros e mais livros, pois nunca teve o afago de uma mulher. Além disso, contaminado pelas filosofias, tornou-se ateu ferrenho e escarnecedor, dizendo coisas terríveis sobre a cristandade. Discutia longas e intermináveis horas, sempre se encharcando de café e exaltando-se ao ponto de quase ter um aneurisma.

Havia um rapaz evangélico dessas igrejas pentecostais, que vendo a amargura ateísta dele, de vez em quando vinha e lhe entregava um panfletinho sobre mensagens bíblicas. Ele apenas recebia displicentemente, amassava e jogava na lixeira mais próxima. Certa vez, porém, um desses panfletos lhe chamou a atenção, pois estava escrito em letras vermelhas: “O que Deus quer de nós”? Considerou que aquilo era uma pergunta filosófica e esse guardou na carteira para ler posteriormente.

Certa tarde, estando ele em seu pequeno quiosque, surgiu de repente, uma bela mulher que, sorrindo-lhe com o mais belo sorriso que jamais havia visto, trouxe-lhe um broche de ouro velho para conserto. A presença daquela mulher o destreinou completamente, que mal conseguiu entender o que ela dizia, inebriado com aquela concupiscente e provocante boca vermelha, transbordante de lascívia, pois o pecado é mais fecundo do que a virtude. O pobre miserável tentou em vão esconder a feiura e a pobreza que o atormentava, mas a mulher não pareceu se importar. Ao sair, prometendo voltar no dia seguinte, ela tocou-lhe a face escaveirada com tanta meiguice que ele sentiu-se mal e uma diarreia morna lhe escorreu pernas abaixo.
Durante a noite não dormiu, varando a madrugada, adoentado, febril, lendo e relendo os “vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Pablo Neruda, delirando de paixão, remoendo-se de dor e de desejo.

“Áspero amor, violeta coroado de espinhos, brejal entre tantas paixões eriçadas, lança das dores, coroa da cólera, por quais caminhos e como te dirige a minha alma? Por que precipitaste teu fogo doloroso, de súbito, entre as folhas frias do meu caminho”?

No dia seguinte estava exausto, indeciso e nervoso. Fez o conserto da joia de ouro velho da mulher e a esperou febrilmente, tal um moribundo a esperar a morte.

A mulher chegou finalmente, mil vezes mais bela do que no dia anterior, mas ele já eivado e cego pela súbita e encaniçada paixão, não enxergaria outra coisa além da beleza dela. Em poucos minutos já estavam tomando café e conversando sobre o Céu, a Terra e as Potestades do ar. Ele não acreditava que aquela mulher o queria de alguma forma. Além do mais ele era pobre e feio. Ela, porém, gostava de ouvir suas palestras intelectualizadas e já tinha dito o quanto admirava o seu conhecimento sobre quase tudo! Em pouco tempo, já eram grandes amigos e se encontravam todo dia. Ele já desvairado de paixão, incrédulo, dizia a todos que deixaria ser levado por ela até mesmo até os confins do inferno, se realmente tal lugar existisse.

No entanto, nada ainda havia acontecido, até um dia em que ela lhe chegou provocante e insinuante, convidando-o para ir ao apartamento dela. Atônito, ele entrou no carro em que ela veio, um surpreendente sedan Lexus SC, que custaria algo em torno de cem mil dólares. Em poucos minutos já estavam no condomínio de luxo, numa cobertura no trigésimo andar, de frente para o mar. Foi aí que Hesíodo envergonhou-se de sua pobreza.

Ela entrou em um dos quartos, dizendo que iria tomar banho e vestir algo mais apropriado e que ele se sentisse à vontade e que podia se servir de alguma bebida. Ele notou que o silêncio dentro do apartamento era insidioso. Ele sentiu um odor acre de amêndoas... Quem sabe um perfume, talvez, imaginou. Naquele momento, atormentou-lhe também um sentimento de medo.

Pôs a mão no bolso de trás da calça e encontrou o panfleto onde estava escrito, “O que Deus quer de nós?”. Segurou o papel por alguns instantes e leu rapidamente Provérbios 18: “O nome de Jeová é uma torre forte. O justo corre para dentro dela e recebe proteção”. Sentiu um pouco de alívio, logo ele, um ateu convicto.

Como a mulher demorava a voltar ele pôs-se a explorar o local. Novamente sentiu o odor acre e viu uma porta entreaberta de onde parecia vir o cheiro. Empurrou a porta e atônito, deparou-se com uma cena impressionante. A princípio, ele pensou que fosse um quarto de UTI. Havia um homem imobilizado a uma cama de hospital. Ligado a ele, saíam diversos tubos sanfonados que alcançavam o teto e pareciam se conectar com o quarto ao lado. Apavorado, Hesíodo viu quando o homem acamado abriu os olhos e olhou para ele numa expressão de horror e dor. Era um homem ainda jovem, mas nas condições em que se encontrava ali, parecia já ter uns cem anos.

Os diversos tubos que saíam de seu corpo pareciam lhe sugar as entranhas. O pobre homem fez sinal com os olhos esbugalhados para que Hesíodo olhasse no quarto contíguo ao que estavam. Ao abrir a porta dessa vez, experimentou a real visão do inferno. Diversos corpos dilacerados estavam pendurados em ganchos, como em um açougue. Vários tonéis, cheios do que parecia ser gordura humana borbulhavam, deixando sair aquele odor acre de amêndoas.

Hesíodo saiu em direção à porta da frente, já sentindo o desarranjo intestinal. Pelo barulho do chuveiro, percebeu que a mulher ainda continuava no banho. Em seu desespero, desabou em lancinante carreira escada abaixo, desengonçado, arquejando como um cão. Sequer se lembrou de que estava no trigésimo andar. Quando enfim chegou embaixo, ouviu o barulho dos sapatos da mulher. Como ela havia chegado em tão pouco tempo era um misto de horror e preocupação. Pareceu-lhe ter ouvido uns gemidos por sobre o sussurro de vozes, como um som saído de um túnel. Era ela que o chamava carinhosamente. O sangue lhe gelou nas veias quando ela parecia estar cada vez mais perto. Lembrou-se então do panfleto evangélico e clamou em silêncio pelo nome de Deus, como havia lido nos Provérbios. Pediu a Jeová que o protegesse em sua torre forte.

No dia seguinte foi acordado por um vigilante. Estava todo sujo, encolhido dentro de um anel de concreto, no meio das ruínas de um edifício completamente abandonado. Descobriu que estava desaparecido há vários dias e por mais que contasse o que tinha se passado, nunca ninguém acreditou nele. Ele, no entanto, sabia agora que havia mesmo um nome a quem clamar nas horas de angústia e solidão.






domingo, 4 de setembro de 2016

O NEGRO QUE MATOU O PADRE, O BOI SANTO E OS MISTÉRIOS DE JUAZEIRO




Os diversos golpes de faca rasgaram com violência o peito do monsenhor Joviniano Barreto que, ainda envergando o roquete, desfaleceu já sem vida nos braços de alguns atônitos seminaristas que o ajudavam a entrar no carro.

As Parcas lhe tinham já fiado o tecido da morte.

Há menos de um minuto o religioso havia deixado a solenidade de lançamento da pedra fundamental do convento dos capuchinhos. O assassino, ainda de faca em punho, arquejando como um porco ensanguentado no matadouro, como que possuído pelo Pazuzu, balbuciava grunhidos, roncos e coisas ininteligíveis. Alguns circunstantes afirmaram que ouviram ele dizer em alto e bom som a estranha frase: “Matei o Monsenhor porque ele remexeu nos mistérios de Juazeiro”. Mas, quem iria naquele momento, saber o que um assassino enlouquecido queria dizer? O criminoso, chamado de Manoel Pedro da Silva, ficou conhecido como “o negro que matou o padre”.

Oficialmente a História conta que o matador queria constituir matrimônio com uma mulher já casada, o que o monsenhor negou veementemente, proibindo-o de entrar na igreja e até de assistir à missa, ameaçando-lhe de excomunhão, caso ele insistisse naquele sacrilégio. O homem então, fora de si, ali mesmo, insistiu mais uma vez com o padre para que o casasse, sob ameaça de que iria morar com a moça, com ou sem o casamento religioso. Diante de tal sentença, o vigário perdeu todas as expressões de serenidade, deixando lhe ferver nas veias o sangue de filho dos Inhamuns e, com desmedida violência para um sacerdote, empurrou o pobre homem escada abaixo. A sentença de morte do monsenhor, foi proferida irreversivelmente, então, naquele momento.

Tendo isso exposto, então, a que mistérios de Juazeiro, o assassino teria se referido?

De fato, durante o sermão de uma missa que celebrara, o vigário Joviniano Barreto pusera em dúvida os milagres de transmutação da hóstia em sangue, ocorridos na pequena vila em que o Padre Cícero era vigário. E bem muito antes do assassínio, o monsenhor já denunciava às autoridades eclesiásticas da região que, na Baixada da Anta, os fanáticos estavam se desviando da ortodoxia da Igreja Católica, praticando o fetichismo em total heresia aos cultos da Santa Igreja, principalmente em relação à “santificação” do boi Mansinho, presente dado por padre Cícero aos seguidores do beato José Lourenço. O animal foi cuidado com todo zelo e carinho pelos fanáticos, mormente por se tratar de uma doação feita pelo “Santo Padim Cíço”, como gostavam de se referir ao sacerdote.

Aos poucos, a estima dedicada ao boi Mansinho, que ficou sendo chamado de “Boi Santo”, foi se transformando em adoração. Os chifres eram adornados com flores e fitas; sua urina transformada em remédio milagroso e as pontas das unhas em amuletos.

As autoridades da época, tendo à frente o Dr. Floro Bartolomeu, atendendo os anseios do monsenhor e tentando evitar críticas da imprensa, pôs fim no totemismo ao prender o Beato José Lourenço e mandar sacrificar em praça pública o “Boi Santo”, na presença de muitos fanáticos, inclusive entre os presentes, estava o negro que matou o padre.

E o que dizer de dona Hermínia Marques Gouveia que tinha estranhas visões e que escrevia tudo a mandado de Padre Cícero? Poucos dias antes de morrer, queimou vários rolos de papéis e mandou enterrar muitos outros, coisa que desagradou bastante ao padre Cícero, que fez arrancar os papéis enterrados que se encontravam totalmente encharcados, não se aproveitando quase nenhum, pois havia chovido muito naqueles dias. O que tinha nesses papeis?

Eram esses mistérios, entre muitos outros, que o monsenhor Joviniano havia remexido, sendo punido com tão violenta morte?

Para selar o mistério, o assassino do padre foi assassinado na prisão oito anos depois, com três profundas peixeiradas.

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Blogs consultados e textos reproduzidos:







sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A RUA CONDE D’EU DEU EM SANGUE



Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; 
e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmo 
se atormentaram com muitas dores. - 1 Timóteo 6:10



Na cidade de Fortaleza, a Rua Direita dos Mercadores, hoje Rua Conde D’Eu, era a zona do comércio de secos e molhados, dos cabarés, pensões altas ou alegres – como assim se dizia nos idos anos da década de 1950. 

Uma vez o Diabo, cheio de ciúme e avareza, arrastando desde as profundezas infernais o fétido manto negro embotado de cobiça, botou o olho em um homem de índole miserável que andava por ali, no meio daquele antro de prostituição e jogos de azar. Esse homem desprezível, já tinha sido um bem sucedido jogador de futebol, mas agora afundado em dívidas, daria o que lhe restava por qualquer preço que se lhe ofertasse, a sua pobre alma. O Diabo sorriu cofiando os bigodes. 

O Príncipe das Trevas então, seguro de que faria um bom negócio, ofertou ao homem um automóvel da marca Chevrolet 1950, de luxo, último modelo. Negociou-lhe ao pé do ouvido os termos do conchavo – e a alma seria dele, do Diabo – bastando para isso que o infeliz tirasse duas vidas. 

Com o coração cheio de cobiça e os olhos amarelados de ganância, o malogrado indivíduo exultou entre copos de zinebra e, sufocado pelo espesso fumo aziago, aceitou sem questionar nada, afinal ter a posse de robusto automóvel Chevrolet era seu sonho de consumo. E assim o fez conforme lhe ordenara o Mafarrico. Atraiu os dois rapazes, donos do luxuoso automóvel, com a justificativa que tinha a intenção de comprar o carro por um bom preço, o que seria à época a vultosa quantia de 145 contos de Réis. 

No dia Primeiro de Setembro daquele ano, levou os dois incautos e infelizes rapazes para um quarto de pensão que ficava na Rua Conde D’Eu para celebrar o contrato de compra e venda do veículo. Mal sabiam os dois que o próprio Satanás os seguia de perto, tripudiando e divertindo-se com o que haveria de acontecer. O patife e desprezível, sem dar a nenhum deles sequer uma chance de defesa, covardemente, mata-os com uma barra de ferro, escondendo os corpos em um guarda-roupa, levando-os depois para as dunas ermas e desertas na Barra do Ceará e decapitando-os, os enterra em covas rasas. 

Dias depois, passou a rodar com o carro pelas ruas da cidade, como se fosse mesmo o legítimo proprietário do automóvel. Mas ele só não sabia, nem sequer desconfiava que tudo o que o Diabo dá com uma mão, tira com a outra. No mês seguinte, precisamente no dia Treze de Outubro, o pavoroso e impiedoso crime foi descoberto, levando o desgraçado à condenação de trinta anos de prisão, segundo crônica policialesca da época. Há relatos também de que o destino do cruel assassino teve final semelhante ao de suas vítimas: no ano de 1968, dezoito anos depois do bárbaro crime, o monstro fora encontrado morto nas mesmas condições. Decapitado e trucidado como um porco. 

O Diabo, naquele caso, havia mais uma vez cumprido o seu sutil e vergonhoso papel. De tanto andar em derredor da Terra, como um leão que espreita sua caça, rugindo e procurando a quem devorar. 

Baudelaire já nos havia advertido certa vez que, existem a todo o momento de nossas vidas, duas postulações simultâneas: uma a Deus, outra a Satanás. A invocação a Satanás, ou animalidade, é uma alegria de precipitar-se no abismo.


sábado, 23 de janeiro de 2016

O PADRE




Uma pequena cidadezinha nos confins do sertão atormentado pela seca, esquecida e perdida entre os montes de pedras, no meio da caatinga ardente, tinha como prefeito um coronel abastado que morava na Capital e só ia lá uma vez por mês para assinar os papeis da prefeitura.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A HORA



Durante toda aquela noite quente, que bem podia ter sido silenciosa, além do ladrar incessante dos cachorros, ouviram-se murmúrios nos quartos do palacete assobradado do Comendador.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

UMA NOITE DE DOR E ÓDIO NA RUA DA PALMA


Casa em que residiu e foi assassinado o Major Facundo. De 1854 a 1959 funcionou no local a Casa Villar. Ficava na esquina da Rua da Palma com a Rua das Belas, hoje Rua São Paulo.  Hoje no mesmo local funciona a Livraria das Edições Paulinas.


O ano era 1841, dia oito de dezembro, dezenove horas e trinta minutos. A escuridão já tomava o Largo das Trincheiras e a noite escura escondia o terror que se avizinhava para compor a tragédia que não poderia mais ser adiada, pois os braços do mal já se estendiam sobre a Rua da Palma.

O Major acabara de jantar e enquanto bebia uma taça de vinho tinto, ouviu batidas na porta da frente do casarão. Dona Florencia estremeceu. Tinha tido sonhos inquietantes na noite anterior e passou o dia todo com um mau pressentimento. Diz-se também que o próprio Major não conseguiu dormir, agonizando toda a noite com uma dor de cabeça terrível. 

As batidas continuaram. Dona Florencia segurou o braço do marido, tentando detê-lo e se adiantou para a janela que dava para a rua escura. Olhou pela janela e parou institivamente. Teve a impressão de ter visto fagulhas no meio do breu da noite, como de arma que negou fogo. O major sorriu. Ele era dado ao trato com armas e sem nenhum medo, debruçou-se na janela para ver quem estava batendo à porta. Antes tivesse ouvido as preocupações de dona Florencia. 

Sem nem mesmo ter tido tempo de abotoar a camisa, ainda de peito aberto, ouviu-se um estrondo e o major desabou com estardalhaço, ensanguentando todo o piso de taco, já morto. Recebeu três tiros de bacamarte e de acordo com o laudo de corpo de delito, as balas por pouco não arrancaram a cabeça do infeliz major. Ferida na mão por estilhaços, dona Florencia, enlouquecida, clamava aos Céus por vingança, envenenada pelo ódio e pela dor impronunciável.

O assassinato do Major já era quase que certo. Todos sabiam que ele era jurado de morte. Só não se sabia o dia nem a infeliz hora. O militar era chefe do Partido Liberal e Comandante dos Nobres e tinha inimigos de grande porte e adversários irreconciliáveis, além de muitas divergências políticas. Já tinha sido vítima de dois atentados, escapando ileso. O primeiro, tentaram matá-lo com tiros em uma tocaia na Rua da Ponte. O outro atentado foi na Praça Carolina, esquina das ruas da Boa Vista e da Assembleia Provincial.

Havia rumores de que o mandante de tão cruel assassinato, fora um chefe político do interior, que havia ficado bastante debilitado desde quando tomou a água de uma quartinha na Assembleia Provincial e que, dizem, teria sido envenenada a mando do próprio major. Esse coronel tinha a fama de homem vingativo e cruel, que não levava desaforo para casa. Segundo conta-se, ele era “lobo carniceiro, tramoso e sereno, capaz das maiores perfídias e crueldades sem um franzir de cara, sempre a falar manso e adocicado.” – mas nada ficou provado.

Porém, a esposa do Major, dona Florencia, jurava de joelhos aos pés da imagem de Nossa Senhora do Rosário e até do Santíssimo Sacramento, que quem ordenara a morte de seu amado esposo fora a esposa do então presidente da Província. Mas isso já seria uma outra história que não convém agora se estender.

O sepultamento do Major deu-se de forma incomum: a pedido da chorosa esposa, dona Florencia, mandou-se sepultá-lo de pé, emparedado em uma coluna na Igreja do Rosário, ornada com uma belíssima lápide feita em mármore de Carrara. Diz-se que de tal lápide escorre sangue e que cujas letras lapidadas, vez por outra, contorcem-se de ódio, rancor e dor.

O casarão, depois de tão triste episódio, desfez-se por completo, desabando sobre si mesmo, deixando marcas de choro em suas paredes enegrecidas pelo tempo. Ainda hoje, é impossível passar em frente ao local e não sentir um mal estar repentino ou uma sensação de angustiosa tristeza, um abismo escuro e um vale de lágrimas. 



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O SONHO



O suicida ia pular, mas do alto do edifício, na fímbria do horizonte, viu o mar. 
(Nemésio Silva Filho)


Sonhava que estava caindo, caindo, caindo, num cair sem fim. Acordava depois, assustado, no chão ao lado da cama, ensopado de suor, tremendo. Ouvia o tique-taque do relógio em cima da cabeceira da cama e conferia que já passava das três da manhã, como das outras vezes do mesmo sonho. Morava só. Não tinha nem com quem comentar o sonho que já o vinha atormentando há vários meses. Não dormia mais, com medo de cair de novo dentro do sonho. Saía para ver a rua, ainda deserta, silenciosa. O vento da madrugada açoitava as árvores, únicas testemunhas silentes do seu terror noturno. Amanhecia completamente exausto, mal humorado, irascível, com uma dor de cabeça do tamanho dos astros.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O HOMEM QUE DECIDIU NÃO MORRER

​Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para a Divina Comédia de Dante



O coronel Alarcão morreu na fria madrugada do dia vinte e cinco de setembro de mil novecentos e cinquenta e nove, há exatos cinquenta e seis anos. No dia da sua morte, estava confortavelmente sentado em sua poltrona defronte para o janelão de onde se avistava o verde-azul do mar, saboreando a sua costumeira chávena de café. E assim passava os dias, observando o sinuoso e incansável dançar das vagas, que se espatifava no quebra-mar. Descansava a vista fatigada na fímbria do horizonte, donde balouçavam distantes velas brancas de jangadas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O HOMEM SENTADO

Caronte ilustrado por Gustave Doré, para a Divina Comédia.

Defronte para o nada, esquecido em sua própria solidão, de vez em quando “projetando a sua sombra magra, pensava no Destino e tinha medo”. 

Em sua cadeira de rodas, à noite, lia de Augusto dos Anjos, “As cismas do Destino”, com olhos opacos, “fecundando os ovos do vício”, gemendo como geme o arvoredo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O VAZIO

Caatinga (Ilustração de Percy Lau - 1903-1972)


O sol, quando ao meio-dia, causa estranhas vertigens. Vislumbra-se vultos distorcidos embrenhados na caatinga, caminhando entre serrotes de pura pedra, no meio da vegetação seca, árida, de difícil acesso, distritos abandonados, onde mal se vê a presença humana, senão aqui e ali, uma casinha feita de barro, coberta de palha da carnaubeira, distante de praticamente tudo, sem água nem energia elétrica, construídas na solidão do sertão, não se sabe por quem, tendo apenas a imensidão do azul do céu e a caatinga miserável como vizinhança.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O VAMPIRO



Cena do filme Nosferatu, eine Symphonie des Grauens de 1922

Naquela manhã fria e chuvosa, um homem velho e esquálido, de tez amarelada que demonstrava claramente a vigência de uma dor que lhe causava grande sofrimento, entrou no bar e pediu uma cerveja. Andava trêmulo e devagar como se contasse os passos. Se alguém o estivesse observando, diria que ele tinha o sinistro aspecto doentio de um strigoi

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O ENTARDECER




Agamenon, um velho professor aposentado havia sofrido um traumático acidente de carro, fraturando as duas pernas, costelas, tíbias, patelas, clavículas, inclusive a mandíbula que lhe impedia até de falar e, por esta razão, depois de enfim sair do hospital, onde havia permanecido internado por meses, ficou prostrado em uma cama em sua casa. Como era solteiro e não tinha sequer um só parente ou amigo fiel que lhe pudesse fazer companhia, contratou uma enfermeira para vir todos os dias, no final das tardes, a fim de tratar dos seus inúmeros ferimentos, aplicar as intermináveis injeções e manusear os infames medicamentos, coisa que certamente ele não seria capaz de fazer. 

Embora ela fosse ficar somente por algumas horas, o pobre professor permanecia ali imobilizado, solitário, preso aos ferros da fria cama de hospital, mergulhado na penumbra à espera de que ela chegasse. Pelo menos teria com quem compartilhar a solidão.

Para sua surpresa, no entanto, bem cedo, percebeu que havia alguém na cozinha, pois o barulho de louças, o tilintar de copos, talheres e o cheiro forte de café fresco chegou-lhe até o quarto. De sua cama dava para ver a porta da cozinha e curioso, ficou à espreita para saber de quem se tratava, pois tinha certeza de que não tinha contratado mais ninguém para os afazeres domésticos, além da enfermeira que só viria no final da tarde, conforme o acertado.

Em pouco minutos chegou-lhe uma distinta e gentil senhora vestida de jaleco branco com uma bandeja, trazendo-lhe café quente, torradas, geleia e suco de laranja. Sem dizer palavra, dirigiu-lhe um sorriso doce e em silêncio começou a tratar de seus ferimentos com uma delicadeza impressionante. O professor maravilhado, tomou o delicioso café também no silêncio de sua mudez, enquanto aquela discreta senhora, sem pronunciar sequer uma sílaba que fosse, cuidava dele com grande zelo e dedicação. 

Sem ainda dizer nada, a mulher terminou, sorriu para ele, tomou-lhe a bandeja e saiu do quarto em silêncio que mal se ouvia o barulho de seus sapatos. O professor Agamenon também não pôde falar nada, já que com a mandíbula fraturada, decerto lhe seria impossível. Logo, satisfeito, ainda surpreso e maravilhado com a cuidadora, adormeceu profundamente. 

Acordou de supetão quando adentrou no quarto uma enfermeira com cara de poucos amigos. Já passava das cinco horas da tarde. Ele percebeu que não era a mesma cuidadora que tinha vindo mais cedo. A mulher mostrava-se visivelmente aborrecida, dizendo que fora enganada, que ele não tinha nenhum ferimento, nem precisava de nenhum cuidado ambulatorial e que aliás, não tinha nada que o prendesse àquela cama e que só foi ali perder o seu precioso tempo, pois tinha outros doentes de verdade para cuidar.

Atônito, Agamenon experimentou falar e para sua surpresa, não sentia mais nada na mandíbula fraturada. Aliás não sentia nenhuma dor. Parecia mesmo que nunca estivera doente nem que sofrera nenhum acidente. A enfermeira saiu bastante aborrecida, batendo a porta com toda a força de que dispunha.

O velho professor levantou-se da cama disposto e abriu a vidraça. Uma brisa suave invadiu o quarto, agora iluminado pelos últimos raios de sol. O céu estava vermelho-alaranjado com nuvens rosadas que se pronunciavam por detrás da torre da igreja. Pássaros pequeninos cruzavam o céu em revoada ao entardecer. Respirou fundo e sentou-se em uma poltrona de frente para a janela. 

Percebeu então que havia uma fumegante xícara de café quente em cima do criado mudo.




terça-feira, 16 de junho de 2015

O bode Dezessete



O bode é um dos bichos mais parecidos com gente que dá até medo. Certa vez meu avô Alfredo me contou uma estranha e curiosa história. 

Ele criava no quintal um bode pai de chiqueiro, dez cabras leiteiras e cinco cabritinhos que somavam no total dezesseis bichos, conforme ele tinha contado antes de ir pra feira, naquele sábado. Quando ele voltou, lá pras bandas do meio-dia, contou dezessete, tendo inclusive, outro bode macho, bonito, imponente, o pelo todo preto, lustroso e os olhos amarelos.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Concurso “Fritz Teixeira de Salles” de Poesia

Poema escrito em 1987 foi agraciado no ano de 2015 como Primeiro Colocado no XIII Concurso "Fritz Teixeira de Salles" de Poesia, da Fundação Cultural “Pascoal Andreta”, na cidade de Monte Sião - MG


NAVIOS ABSTRATOS

“O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos” – Fernando Pessoa

Anda equidistante meu pensamento
D’álgum lugar , longe das coisas, no último silêncio
De alguém que não sei onde está
Que nem me lembro


E a hora surda e opaca pousa em mim duma vez
Mas estou longe daqui e semi-morto
Vejo navios abstratos
Pontos indefesos no porto
E a hora surda e opaca pousa em mim outra vez


Ondula n’alma uma saudade absurda
E aqui distante relembro só e absorto
Vejo navios abstratos
Monumentos inacabados no porto.

Ilustração de Gustave Doré [1798]