domingo, 4 de setembro de 2016

O NEGRO QUE MATOU O PADRE, O BOI SANTO E OS MISTÉRIOS DE JUAZEIRO




Os diversos golpes de faca rasgaram com violência o peito do monsenhor Joviniano Barreto que, ainda envergando o roquete, desfaleceu já sem vida nos braços de alguns atônitos seminaristas que o ajudavam a entrar no carro.

As Parcas lhe tinham já fiado o tecido da morte.

Há menos de um minuto o religioso havia deixado a solenidade de lançamento da pedra fundamental do convento dos capuchinhos. O assassino, ainda de faca em punho, arquejando como um porco ensanguentado no matadouro, como que possuído pelo Pazuzu, balbuciava grunhidos, roncos e coisas ininteligíveis. Alguns circunstantes afirmaram que ouviram ele dizer em alto e bom som a estranha frase: “Matei o Monsenhor porque ele remexeu nos mistérios de Juazeiro”. Mas, quem iria naquele momento, saber o que um assassino enlouquecido queria dizer? O criminoso, chamado de Manoel Pedro da Silva, ficou conhecido como “o negro que matou o padre”.

Oficialmente a História conta que o matador queria constituir matrimônio com uma mulher já casada, o que o monsenhor negou veementemente, proibindo-o de entrar na igreja e até de assistir à missa, ameaçando-lhe de excomunhão, caso ele insistisse naquele sacrilégio. O homem então, fora de si, ali mesmo, insistiu mais uma vez com o padre para que o casasse, sob ameaça de que iria morar com a moça, com ou sem o casamento religioso. Diante de tal sentença, o vigário perdeu todas as expressões de serenidade, deixando lhe ferver nas veias o sangue de filho dos Inhamuns e, com desmedida violência para um sacerdote, empurrou o pobre homem escada abaixo. A sentença de morte do monsenhor, foi proferida irreversivelmente, então, naquele momento.

Tendo isso exposto, então, a que mistérios de Juazeiro, o assassino teria se referido?

De fato, durante o sermão de uma missa que celebrara, o vigário Joviniano Barreto pusera em dúvida os milagres de transmutação da hóstia em sangue, ocorridos na pequena vila em que o Padre Cícero era vigário. E bem muito antes do assassínio, o monsenhor já denunciava às autoridades eclesiásticas da região que, na Baixada da Anta, os fanáticos estavam se desviando da ortodoxia da Igreja Católica, praticando o fetichismo em total heresia aos cultos da Santa Igreja, principalmente em relação à “santificação” do boi Mansinho, presente dado por padre Cícero aos seguidores do beato José Lourenço. O animal foi cuidado com todo zelo e carinho pelos fanáticos, mormente por se tratar de uma doação feita pelo “Santo Padim Cíço”, como gostavam de se referir ao sacerdote.

Aos poucos, a estima dedicada ao boi Mansinho, que ficou sendo chamado de “Boi Santo”, foi se transformando em adoração. Os chifres eram adornados com flores e fitas; sua urina transformada em remédio milagroso e as pontas das unhas em amuletos.

As autoridades da época, tendo à frente o Dr. Floro Bartolomeu, atendendo os anseios do monsenhor e tentando evitar críticas da imprensa, pôs fim no totemismo ao prender o Beato José Lourenço e mandar sacrificar em praça pública o “Boi Santo”, na presença de muitos fanáticos, inclusive entre os presentes, estava o negro que matou o padre.

E o que dizer de dona Hermínia Marques Gouveia que tinha estranhas visões e que escrevia tudo a mandado de Padre Cícero? Poucos dias antes de morrer, queimou vários rolos de papéis e mandou enterrar muitos outros, coisa que desagradou bastante ao padre Cícero, que fez arrancar os papéis enterrados que se encontravam totalmente encharcados, não se aproveitando quase nenhum, pois havia chovido muito naqueles dias. O que tinha nesses papeis?

Eram esses mistérios, entre muitos outros, que o monsenhor Joviniano havia remexido, sendo punido com tão violenta morte?

Para selar o mistério, o assassino do padre foi assassinado na prisão oito anos depois, com três profundas peixeiradas.

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Blogs consultados e textos reproduzidos:







sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A RUA CONDE D’EU DEU EM SANGUE



Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; 
e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmo 
se atormentaram com muitas dores. - 1 Timóteo 6:10



Na cidade de Fortaleza, a Rua Direita dos Mercadores, hoje Rua Conde D’Eu, era a zona do comércio de secos e molhados, dos cabarés, pensões altas ou alegres – como assim se dizia nos idos anos da década de 1950. 

Uma vez o Diabo, cheio de ciúme e avareza, arrastando desde as profundezas infernais o fétido manto negro embotado de cobiça, botou o olho em um homem de índole miserável que andava por ali, no meio daquele antro de prostituição e jogos de azar. Esse homem desprezível, já tinha sido um bem sucedido jogador de futebol, mas agora afundado em dívidas, daria o que lhe restava por qualquer preço que se lhe ofertasse, a sua pobre alma. O Diabo sorriu cofiando os bigodes. 

O Príncipe das Trevas então, seguro de que faria um bom negócio, ofertou ao homem um automóvel da marca Chevrolet 1950, de luxo, último modelo. Negociou-lhe ao pé do ouvido os termos do conchavo – e a alma seria dele, do Diabo – bastando para isso que o infeliz tirasse duas vidas. 

Com o coração cheio de cobiça e os olhos amarelados de ganância, o malogrado indivíduo exultou entre copos de zinebra e, sufocado pelo espesso fumo aziago, aceitou sem questionar nada, afinal ter a posse de robusto automóvel Chevrolet era seu sonho de consumo. E assim o fez conforme lhe ordenara o Mafarrico. Atraiu os dois rapazes, donos do luxuoso automóvel, com a justificativa que tinha a intenção de comprar o carro por um bom preço, o que seria à época a vultosa quantia de 145 contos de Réis. 

No dia Primeiro de Setembro daquele ano, levou os dois incautos e infelizes rapazes para um quarto de pensão que ficava na Rua Conde D’Eu para celebrar o contrato de compra e venda do veículo. Mal sabiam os dois que o próprio Satanás os seguia de perto, tripudiando e divertindo-se com o que haveria de acontecer. O patife e desprezível, sem dar a nenhum deles sequer uma chance de defesa, covardemente, mata-os com uma barra de ferro, escondendo os corpos em um guarda-roupa, levando-os depois para as dunas ermas e desertas na Barra do Ceará e decapitando-os, os enterra em covas rasas. 

Dias depois, passou a rodar com o carro pelas ruas da cidade, como se fosse mesmo o legítimo proprietário do automóvel. Mas ele só não sabia, nem sequer desconfiava que tudo o que o Diabo dá com uma mão, tira com a outra. No mês seguinte, precisamente no dia Treze de Outubro, o pavoroso e impiedoso crime foi descoberto, levando o desgraçado à condenação de trinta anos de prisão, segundo crônica policialesca da época. Há relatos também de que o destino do cruel assassino teve final semelhante ao de suas vítimas: no ano de 1968, dezoito anos depois do bárbaro crime, o monstro fora encontrado morto nas mesmas condições. Decapitado e trucidado como um porco. 

O Diabo, naquele caso, havia mais uma vez cumprido o seu sutil e vergonhoso papel. De tanto andar em derredor da Terra, como um leão que espreita sua caça, rugindo e procurando a quem devorar. 

Baudelaire já nos havia advertido certa vez que, existem a todo o momento de nossas vidas, duas postulações simultâneas: uma a Deus, outra a Satanás. A invocação a Satanás, ou animalidade, é uma alegria de precipitar-se no abismo.


sábado, 23 de janeiro de 2016

O PADRE




Uma pequena cidadezinha nos confins do sertão atormentado pela seca, esquecida e perdida entre os montes de pedras, no meio da caatinga ardente, tinha como prefeito um coronel abastado que morava na Capital e só ia lá uma vez por mês para assinar os papeis da prefeitura.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A HORA



Durante toda aquela noite quente, que bem podia ter sido silenciosa, além do ladrar incessante dos cachorros, ouviram-se murmúrios nos quartos do palacete assobradado do Comendador.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

UMA NOITE DE DOR E ÓDIO NA RUA DA PALMA


Casa em que residiu e foi assassinado o Major Facundo. De 1854 a 1959 funcionou no local a Casa Villar. Ficava na esquina da Rua da Palma com a Rua das Belas, hoje Rua São Paulo.  Hoje no mesmo local funciona a Livraria das Edições Paulinas.


O ano era 1841, dia oito de dezembro, dezenove horas e trinta minutos. A escuridão já tomava o Largo das Trincheiras e a noite escura escondia o terror que se avizinhava para compor a tragédia que não poderia mais ser adiada, pois os braços do mal já se estendiam sobre a Rua da Palma.

O Major acabara de jantar e enquanto bebia uma taça de vinho tinto, ouviu batidas na porta da frente do casarão. Dona Florencia estremeceu. Tinha tido sonhos inquietantes na noite anterior e passou o dia todo com um mau pressentimento. Diz-se também que o próprio Major não conseguiu dormir, agonizando toda a noite com uma dor de cabeça terrível. 

As batidas continuaram. Dona Florencia segurou o braço do marido, tentando detê-lo e se adiantou para a janela que dava para a rua escura. Olhou pela janela e parou institivamente. Teve a impressão de ter visto fagulhas no meio do breu da noite, como de arma que negou fogo. O major sorriu. Ele era dado ao trato com armas e sem nenhum medo, debruçou-se na janela para ver quem estava batendo à porta. Antes tivesse ouvido as preocupações de dona Florencia. 

Sem nem mesmo ter tido tempo de abotoar a camisa, ainda de peito aberto, ouviu-se um estrondo e o major desabou com estardalhaço, ensanguentando todo o piso de taco, já morto. Recebeu três tiros de bacamarte e de acordo com o laudo de corpo de delito, as balas por pouco não arrancaram a cabeça do infeliz major. Ferida na mão por estilhaços, dona Florencia, enlouquecida, clamava aos Céus por vingança, envenenada pelo ódio e pela dor impronunciável.

O assassinato do Major já era quase que certo. Todos sabiam que ele era jurado de morte. Só não se sabia o dia nem a infeliz hora. O militar era chefe do Partido Liberal e Comandante dos Nobres e tinha inimigos de grande porte e adversários irreconciliáveis, além de muitas divergências políticas. Já tinha sido vítima de dois atentados, escapando ileso. O primeiro, tentaram matá-lo com tiros em uma tocaia na Rua da Ponte. O outro atentado foi na Praça Carolina, esquina das ruas da Boa Vista e da Assembleia Provincial.

Havia rumores de que o mandante de tão cruel assassinato, fora um chefe político do interior, que havia ficado bastante debilitado desde quando tomou a água de uma quartinha na Assembleia Provincial e que, dizem, teria sido envenenada a mando do próprio major. Esse coronel tinha a fama de homem vingativo e cruel, que não levava desaforo para casa. Segundo conta-se, ele era “lobo carniceiro, tramoso e sereno, capaz das maiores perfídias e crueldades sem um franzir de cara, sempre a falar manso e adocicado.” – mas nada ficou provado.

Porém, a esposa do Major, dona Florencia, jurava de joelhos aos pés da imagem de Nossa Senhora do Rosário e até do Santíssimo Sacramento, que quem ordenara a morte de seu amado esposo fora a esposa do então presidente da Província. Mas isso já seria uma outra história que não convém agora se estender.

O sepultamento do Major deu-se de forma incomum: a pedido da chorosa esposa, dona Florencia, mandou-se sepultá-lo de pé, emparedado em uma coluna na Igreja do Rosário, ornada com uma belíssima lápide feita em mármore de Carrara. Diz-se que de tal lápide escorre sangue e que cujas letras lapidadas, vez por outra, contorcem-se de ódio, rancor e dor.

O casarão, depois de tão triste episódio, desfez-se por completo, desabando sobre si mesmo, deixando marcas de choro em suas paredes enegrecidas pelo tempo. Ainda hoje, é impossível passar em frente ao local e não sentir um mal estar repentino ou uma sensação de angustiosa tristeza, um abismo escuro e um vale de lágrimas. 



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O SONHO



O suicida ia pular, mas do alto do edifício, na fímbria do horizonte, viu o mar. 
(Nemésio Silva Filho)


Sonhava que estava caindo, caindo, caindo, num cair sem fim. Acordava depois, assustado, no chão ao lado da cama, ensopado de suor, tremendo. Ouvia o tique-taque do relógio em cima da cabeceira da cama e conferia que já passava das três da manhã, como das outras vezes do mesmo sonho. Morava só. Não tinha nem com quem comentar o sonho que já o vinha atormentando há vários meses. Não dormia mais, com medo de cair de novo dentro do sonho. Saía para ver a rua, ainda deserta, silenciosa. O vento da madrugada açoitava as árvores, únicas testemunhas silentes do seu terror noturno. Amanhecia completamente exausto, mal humorado, irascível, com uma dor de cabeça do tamanho dos astros.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O HOMEM QUE DECIDIU NÃO MORRER

​Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para a Divina Comédia de Dante



O coronel Alarcão morreu na fria madrugada do dia vinte e cinco de setembro de mil novecentos e cinquenta e nove, há exatos cinquenta e seis anos. No dia da sua morte, estava confortavelmente sentado em sua poltrona defronte para o janelão de onde se avistava o verde-azul do mar, saboreando a sua costumeira chávena de café. E assim passava os dias, observando o sinuoso e incansável dançar das vagas, que se espatifava no quebra-mar. Descansava a vista fatigada na fímbria do horizonte, donde balouçavam distantes velas brancas de jangadas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O HOMEM SENTADO

Caronte ilustrado por Gustave Doré, para a Divina Comédia.

Defronte para o nada, esquecido em sua própria solidão, de vez em quando “projetando a sua sombra magra, pensava no Destino e tinha medo”. 

Em sua cadeira de rodas, à noite, lia de Augusto dos Anjos, “As cismas do Destino”, com olhos opacos, “fecundando os ovos do vício”, gemendo como geme o arvoredo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O VAZIO

Caatinga (Ilustração de Percy Lau - 1903-1972)


O sol, quando ao meio-dia, causa estranhas vertigens. Vislumbra-se vultos distorcidos embrenhados na caatinga, caminhando entre serrotes de pura pedra, no meio da vegetação seca, árida, de difícil acesso, distritos abandonados, onde mal se vê a presença humana, senão aqui e ali, uma casinha feita de barro, coberta de palha da carnaubeira, distante de praticamente tudo, sem água nem energia elétrica, construídas na solidão do sertão, não se sabe por quem, tendo apenas a imensidão do azul do céu e a caatinga miserável como vizinhança.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O VAMPIRO



Cena do filme Nosferatu, eine Symphonie des Grauens de 1922

Naquela manhã fria e chuvosa, um homem velho e esquálido, de tez amarelada que demonstrava claramente a vigência de uma dor que lhe causava grande sofrimento, entrou no bar e pediu uma cerveja. Andava trêmulo e devagar como se contasse os passos. Se alguém o estivesse observando, diria que ele tinha o sinistro aspecto doentio de um strigoi

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O ENTARDECER




Agamenon, um velho professor aposentado havia sofrido um traumático acidente de carro, fraturando as duas pernas, costelas, tíbias, patelas, clavículas, inclusive a mandíbula que lhe impedia até de falar e, por esta razão, depois de enfim sair do hospital, onde havia permanecido internado por meses, ficou prostrado em uma cama em sua casa. Como era solteiro e não tinha sequer um só parente ou amigo fiel que lhe pudesse fazer companhia, contratou uma enfermeira para vir todos os dias, no final das tardes, a fim de tratar dos seus inúmeros ferimentos, aplicar as intermináveis injeções e manusear os infames medicamentos, coisa que certamente ele não seria capaz de fazer. 

Embora ela fosse ficar somente por algumas horas, o pobre professor permanecia ali imobilizado, solitário, preso aos ferros da fria cama de hospital, mergulhado na penumbra à espera de que ela chegasse. Pelo menos teria com quem compartilhar a solidão.

Para sua surpresa, no entanto, bem cedo, percebeu que havia alguém na cozinha, pois o barulho de louças, o tilintar de copos, talheres e o cheiro forte de café fresco chegou-lhe até o quarto. De sua cama dava para ver a porta da cozinha e curioso, ficou à espreita para saber de quem se tratava, pois tinha certeza de que não tinha contratado mais ninguém para os afazeres domésticos, além da enfermeira que só viria no final da tarde, conforme o acertado.

Em pouco minutos chegou-lhe uma distinta e gentil senhora vestida de jaleco branco com uma bandeja, trazendo-lhe café quente, torradas, geleia e suco de laranja. Sem dizer palavra, dirigiu-lhe um sorriso doce e em silêncio começou a tratar de seus ferimentos com uma delicadeza impressionante. O professor maravilhado, tomou o delicioso café também no silêncio de sua mudez, enquanto aquela discreta senhora, sem pronunciar sequer uma sílaba que fosse, cuidava dele com grande zelo e dedicação. 

Sem ainda dizer nada, a mulher terminou, sorriu para ele, tomou-lhe a bandeja e saiu do quarto em silêncio que mal se ouvia o barulho de seus sapatos. O professor Agamenon também não pôde falar nada, já que com a mandíbula fraturada, decerto lhe seria impossível. Logo, satisfeito, ainda surpreso e maravilhado com a cuidadora, adormeceu profundamente. 

Acordou de supetão quando adentrou no quarto uma enfermeira com cara de poucos amigos. Já passava das cinco horas da tarde. Ele percebeu que não era a mesma cuidadora que tinha vindo mais cedo. A mulher mostrava-se visivelmente aborrecida, dizendo que fora enganada, que ele não tinha nenhum ferimento, nem precisava de nenhum cuidado ambulatorial e que aliás, não tinha nada que o prendesse àquela cama e que só foi ali perder o seu precioso tempo, pois tinha outros doentes de verdade para cuidar.

Atônito, Agamenon experimentou falar e para sua surpresa, não sentia mais nada na mandíbula fraturada. Aliás não sentia nenhuma dor. Parecia mesmo que nunca estivera doente nem que sofrera nenhum acidente. A enfermeira saiu bastante aborrecida, batendo a porta com toda a força de que dispunha.

O velho professor levantou-se da cama disposto e abriu a vidraça. Uma brisa suave invadiu o quarto, agora iluminado pelos últimos raios de sol. O céu estava vermelho-alaranjado com nuvens rosadas que se pronunciavam por detrás da torre da igreja. Pássaros pequeninos cruzavam o céu em revoada ao entardecer. Respirou fundo e sentou-se em uma poltrona de frente para a janela. 

Percebeu então que havia uma fumegante xícara de café quente em cima do criado mudo.




terça-feira, 16 de junho de 2015

O bode Dezessete



O bode é um dos bichos mais parecidos com gente que dá até medo. Certa vez meu avô Alfredo me contou uma estranha e curiosa história. 

Ele criava no quintal um bode pai de chiqueiro, dez cabras leiteiras e cinco cabritinhos que somavam no total dezesseis bichos, conforme ele tinha contado antes de ir pra feira, naquele sábado. Quando ele voltou, lá pras bandas do meio-dia, contou dezessete, tendo inclusive, outro bode macho, bonito, imponente, o pelo todo preto, lustroso e os olhos amarelos.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Concurso “Fritz Teixeira de Salles” de Poesia

Poema escrito em 1987 foi agraciado no ano de 2015 como Primeiro Colocado no XIII Concurso "Fritz Teixeira de Salles" de Poesia, da Fundação Cultural “Pascoal Andreta”, na cidade de Monte Sião - MG


NAVIOS ABSTRATOS

“O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos” – Fernando Pessoa

Anda equidistante meu pensamento
D’álgum lugar , longe das coisas, no último silêncio
De alguém que não sei onde está
Que nem me lembro


E a hora surda e opaca pousa em mim duma vez
Mas estou longe daqui e semi-morto
Vejo navios abstratos
Pontos indefesos no porto
E a hora surda e opaca pousa em mim outra vez


Ondula n’alma uma saudade absurda
E aqui distante relembro só e absorto
Vejo navios abstratos
Monumentos inacabados no porto.

Ilustração de Gustave Doré [1798]



sexta-feira, 15 de maio de 2015

OS ZÓI AZUL



Mané Cabôco era preto nagô, neto de quilombolas do Cinzento da Bahia. Homem íntegro, muito trabalhador e temente a Deus. Era casado com a angolana Isidora, mulher muito bonita, faceira, dos olhos de mel, cheia dos balangandãs. Ela vivia sempre na igreja da matriz, ajudando no que fosse preciso. Muito devota de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, só não virou freira mesmo porque se abufelou com o Mané Cabôco numa dessas festas da Padroeira, atrás da igreja. E deu no que deu.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O SONETO DO DIABO





A escassez tira o Diabo de sua toca – Provérbio turco


Como se tivesse saído do soneto do padre Antônio Tomás, uma pobre e desgraçada mulher, ficava todos os dias sentada no chão sobre um papelão. Tremendo em ânsias de fadiga, estendia a mão mirrada a quem passasse, rogando que lhe jogassem uma moeda.

Foi outrora uma belíssima mulher, porém muito mimada. Esnobava sua beleza e partia corações, além de propositalmente humilhar os seus inúmeros e sinceros pretendentes, alucinados por avassaladora paixão incorrespondida.

O pai dela, homem muito simples e temente a Deus, advertia-lhe de que a beleza é coisa passageira. Que tivesse cuidado, pois a beleza é fogueira das vaidades! Recitava constantemente o Eclesiastes e admoestava-lhe diariamente:

“...Aplica o teu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e descobrirás que também tudo isto é aflição de espírito”.

Ela porém, gargalhava, blasfemando contra o doce das palavras de sabedoria que o seu pai inutilmente lhe oferecia, maldizendo a Deus, maldizendo os feios, maldizendo os pobres! Dizia que queria mesmo era conhecer um homem rico, um príncipe, nem que fosse o próprio diabo, que a enchesse de muito dinheiro, joias e pedras preciosas, que a levasse a restaurantes caros e hotéis de luxo, que a levasse para conhecer o mundo inteiro em viagens intermináveis. Sua alma fútil tinha escassez de tudo. E a escassez tira o Diabo de sua toca.

Conta-se que, de tanto desejar um príncipe, o desejo realizou-se da forma que ela queria.

Conta-se que certo dia, um anjo caído que andava a rodear a terra e a passear por ela, desencaminhando os soberbos e fracos de juízo, apaixonou-se perdidamente por aquela bela senhorita. Então ascendeu do quinto dos infernos para ouvir os desejos dela, transformado em um belo mancebo, muito rico, bonito e elegante, vestido de roupas brancas, sapatos brancos e gravata branca. Tinha os cabelos louros e reluzentes como o ouro. O belo sorriso branco e a pele pálida, deixava saltar-lhe olhos enigmáticos, da cor esverdeada de uma esmeralda. Quem chegou perto dele o bastante, percebeu que, na verdade, ele tinha os olhos amarelados, tal e qual os olhos de um gato, com as pupilas fixas e inquietantes e um olhar de um vazio profundo.

O casamento aconteceu rápido, a despeito da não aprovação pelos pais da bela moça. O tal moço excêntrico, embora perdidamente apaixonado, não quis se casar na igreja, de branco como ela queria, pois professava outra religião. Dizia ele que só dobrava os joelhos para Melek Tauus, o Anjo Pavão e somente rezava ao Sol, e não à cruz.

Mesmo assim, desafiando a autoridade dos seus genitores, o que já era de se esperar, a beldade se casou com o rico homem de branco. A festa foi inesquecível e ocupou toda a cidade. No mesmo dia em que se casaram, sumiram no mundo em lua-de-mel. Nunca mais se ouviu falar deles, a não ser de vez em quando vinham notícias de que estavam a bordo de cruzeiros luxuosos ao redor do mundo. Os pais dela ficaram sós, lamentando a ausência da filha única, que não se dignava ao menos de enviar sequer uma carta qualquer que fosse. E nunca mais voltou à sua terra, nem mesmo quando soube da morte dos pais.

Tempos depois, ela voltou só, maltrapilha, velha e doente. Ninguém mais a reconhecia, o que não era de estranhar, pois dizia-se que já tinham passado mais de cem anos. Ela então nada mais pôde fazer, a não ser cair na mendicância e viver na rua.

Uma vez, ao passar por ela, pus um par de moedas em sua esquelética mão. Ela me olhou e sorriu-me com a boca desdentada e oca. Pronunciou um mantra qualquer ininteligível.

Apesar da idade já avançada e da condição miserável na qual se encontrava, os olhos dela ainda guardavam um resquício de sua beleza de outrora.

Foi quando ela me disse sem que eu perguntasse, que enganou a todos e a si mesma. Mas não enganou o Diabo. Ele lhe deu tudo: riquezas, dinheiro, joias, viagens, prosperidade, poder, fartura, luxúria, desejos infinitos. A única coisa que ele quis dela foi amá-la como um mortal. Mas ela não era mulher de um homem só.

Em sua cegueira causada pela ganância, ela não se deu conta de que até mesmo nos mais sórdidos pactos celebrados com o Demônio, era possível existir um mínimo de ética e de decência.


sábado, 28 de março de 2015

CABELOS DE MILHO





A tarde calma estendia sombras enormes no quintal. De vez em quando o vento bulia com a água abandonada no tanque de cimento, rodopiando pequenas ondas circulares como restos de sonhos, que iam e vinham, balançando as folhas amareladas que caíam na água e saíam flutuando como barquinhos de papel.

sexta-feira, 6 de março de 2015

O HOMEM NO OUTRO LADO DA JANELA


O fotógrafo Anton Giulio Bragaglia e o seu "Doppelganger" em 1913


O Diabo às vezes permeia a sua sombra nefasta entre nós de forma sutil, mas neste caso específico, engendrou ele uma diabólica maquinação. Verdadeiramente, divertimento para ele é causar confusão e disparates. 

Mas, se isto for mesmo obra do Diabo, como diz dona Glória, entronizada em seus já setenta anos de existência, no ofício de secretária já há mais de cinquenta anos, não é nada de se duvidar, afinal, alguém que chegue são e salvo aos setenta e é certo que já tenha visto todo tipo de coisas neste mundo. E se ela diz que o que se passará, é coisa do Diabo, convenhamos, é melhor acreditar, pois outra explicação não há.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O PIERROT E A COLOMBINA

Federico Cantu - Arlequines-1930



Agenor era um homem pacato. Não gostava dessa história de folia. Carnaval para ele era coisa de vagabundo, de gente sem noção. Durante o feriado carnavalesco, Agenor gostava mesmo era de ficar em casa, tranquilo, ouvindo os mozartes, betôvens, xúbertes, óperas e o diabo a quatro. Aquilo sim, é que era música de verdade, dizia ele estufando o peito!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O ANJO

Foto do blog da Viagem Oficial



Aquele senhor distinto, como quase sempre fazia nos finais de tarde, sentou-se em um dos bancos da Praça do Ferreira, em frente ao Cine São Luiz, num desses dias calorentos de dezembros de finais de ano, exausto dos dias em vão percorridos, suspirando devagar, como se quisesse renovar o ar para o novo ano que já se avizinhava lentamente.

Percorria, sem nenhuma expectativa, o olhar sereno e displicente pela multidão que se atropelava no vai-e-vem das lojas e das liquidações natalinas. Aquilo tudo não lhe impressionava mais nem um pouco. Tantos dezembros já lhe tinham passado, tantos natais e anos novos, e não tinha visto nunca nenhum milagre, nenhuma mudança, nada de novo, a não ser um novo calendário com um dígito a mais.

Sentou-se ao seu lado, no mesmo banco, um homem simples, trazendo consigo um tabuleiro de cocadas cheirosas. O homem lhe sorriu generosamente como um presente de natal. Sorriu-lhe também só por cortesia, embora não tivesse o interesse de puxar conversa nem de comprar cocadas. Não obstante, ignorando-lhe totalmente o fragrante desinteresse de travar algum tipo de diálogo, o vendedor das cheirosas cocadas perguntou-lhe de supetão, sem mais nem menos:

- Pensando na sua irmã falecida recentemente?

O homem então virou-se bruscamente, pálido como um fantasma.

- Como você sabe?

O vendedor de cocadas olhava para ele serenamente.

- Ela está aqui ao seu lado, no banco. - disse, fazendo o assustado homem saltar de lado. Completamente mudo, o pobre homem fez menção de sair dali. O simpático vendedor de cocadas pôs a mão em seu ombro.

- Sossegue. Ela está dizendo que esse é o milagre de Natal que tanto o senhor queria ver, apesar de seu ceticismo incorrigível. Há muito mais coisas que ela gostaria de lhe contar, mas não é chegada a hora.

- Como você sabe que minha irmã morreu? - perguntou apreensivo.

Ao se virar para o vendedor de cocadas, percebeu que ele não estava mais sentado ao seu lado. Assustado, levantou-se e o procurou por toda a praça, perguntando por ele aqui e ali, mas ninguém o tinha visto. Sequer o conheciam.

Na Coluna da Hora o relógio badalou a Hora do Ângelus, anunciando o coral de meninos cantores, que se agrupavam nas janelas da sacada do prédio do antigo Excelsior Hotel para mais uma apresentação do Natal de Luz.

O homem ainda atônito, sequer percebeu que já era noite.

Na praça do Ferreira, no meio do formigueiro humano agitado de transeuntes, crianças e famílias inteiras que já se agrupavam na praça para ver as luzes de Natal, no mormaço infernal de dezembro, mal percebiam que havia um anjo entre eles que vendia cocadas cheirosas.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A MÃO DA GLÓRIA

Foto de Lee Jeffries

O homem macérrimo e doente, andava às voltas com uma ideia fixa, que o vinha há dezenas de meses exaurindo-lhe o semblante, agora mortificado, de aparência abjeta, desprezível, como um edifício oco.

Havia já sido advertido de que sua saúde inspirava cuidados, mas não dera ouvidos aos  médicos, pois havia urgência em obter o seu intento. Era um homem de maus trabalhos. A doença não adoece o caráter de um homem.