domingo, 28 de janeiro de 2018

O RETRATO



Minha tia tinha segredos. Ela guardava cuidadosamente embrulhado em um delicado tecido rendado, um retrato emoldurado dentro de um baú velho, passado à sete chaves, escondido debaixo da cama. Ninguém, nem mesmo o marido, meu tio, sabia de quem era a dita foto emoldurada que ela venerava com tanto afinco. 

Meu tio não se ocupava sequer em querer saber de quem era a foto misteriosa. Era um homem que lidava com o gado e passava a maioria do tempo dentro dos currais e dos estábulos, não se interessando por caprichos de mulheres. Ele até fazia troça com aquela história. 

- Deve ser a minha foto pra espantar as muriçocas! – Dizia galhofando, em estrondosa gargalhada. 

Muitas vezes, minha tia entrava no quarto, trancava a porta por dentro, demorava quase o dia inteiro enfurnada, a título de fazer uma arrumação. Há quem diga - por ter visto uma vez pelo buraco da fechadura - que ela ficava olhando o tal retrato por horas a fio, com lágrimas nos olhos, petrificada diante daquela moldura. 

Era como se fosse um ritual. 

Quantas vezes - nem me lembro mais - perguntei para minha velha tia, de quem era aquele retrato, que ela guardava com tanto carinho. Ela me olhava com um olhar terno, um sorriso tímido e gentil, então acabava desconversando, entabulando outro assunto e não dando chance para mais nada. 

Aquele retrato misterioso aguçava a curiosidade de todos naquela casa. Imaginava-se diversas teorias da conspiração. Seria o retrato de um amante, uma paixão inesquecida, perdida nas brumas do tempo, a quem ela dedicava aquela veneração e tamanho apreço? É certo que não era a foto do pai, pois não seria motivo de tanto segredo e mistério, pois havia outras fotos dele penduradas pela casa. Muitos se indagaram sobre aquele retrato, mas minha tia tinha sempre arranjava uma desculpa para não se falar sobre o assunto. 

Passou-se o tempo, até que o destino embaralhou as cartas. 

Numa manhã, recebi a notícia de que minha tia fora acometida de uma dor repentina e atroz, que não lhe deu tempo mais para nada. Padeceu silenciosamente, sem grandes embaraços. A morte abocanhou-a com seu manto e levou também com ela seus segredos. Embora seja certo de que, talvez, a morte tenha mais segredos para nos revelar do que a vida. 

No dia seguinte da morte dela, fui ver como estava meu tio. Conversamos pouco. Ele circunspecto, o olhar vazio, o semblante sereno. Eu, aguçado ainda pela curiosidade, perguntei para ele sobre aquela foto misteriosa. Ele sorriu. Disse-me que foi a primeira coisa que ele pensou em olhar, depois que ela tinha morrido. 

Enfim, o mistério da foto seria revelado, pensei, aproximando-me de meu tio. 

- Quando ela morreu... - Disse ele devagar, os olhos fechados, pensativo. - Fui até o velho baú e peguei a moldura, que estava embrulhada em um pano, mas não tive coragem de olhar. Como ela nunca revelou para ninguém, nem mesmo para mim, de quem era aquele retrato, então, não tive coragem suficiente de olhar e ver de quem era foto. 

- O que o senhor fez com o retrato? – Perguntei, aflito. Não me cabia mais de tanta curiosidade. 

- No velório dela, antes de fechar o caixão, sem que ninguém percebesse, botei o retrato do jeito que o encontrei dentro do caixão, junto com ela. Pensei que seria certo que ela levasse esse segredo com ela. 

Fiquei pasmo e ao mesmo tempo um tanto quanto decepcionado. Como poderia existir alguém como o meu tio, sem ter um mínimo de curiosidade? Ele teve nas mãos a chance de descobrir aquele mistério e o que ele fez? Não podia acreditar que ele tenha feito aquilo. 

Olhei para meu tio. 

Ele agora estava com um sorriso no rosto, como o sorriso dela, um sorriso tímido e gentil. 



sábado, 20 de janeiro de 2018

A CARTA




Dona Miúda, como fazia todos os dias, já estava na cozinha preparando o café para o seu Ildefonso e arrumando as coisas para o almoço, quando, pela janela da cozinha, que dava para o quintal, viu o menino. Ainda era cedo da manhã e dona Miúda estranhou aquele menino àquela hora. Olhou bem para ele. Estava bem vestido, com roupas finas, de sapatos bem lustrosos, sério. Com certeza não era daquelas bandas.

- O que será que o diacho desse menino quer aqui, numa hora dessas? – Falou baixinho, sussurrando para si própria, tirando o avental e ajeitando o vestido. O menino continuava lá em frente à porta principal, esperando. Trazia um envelope com ele, observou dona Miúda.

Abriu a porta devagar, e o menino estava lá em pé, parado, empedernido como um soldado.

- Ôxente! Que diacho vosmicê veio fazer aqui, a essa hora, seu menino? – Perguntou bem ríspida. Àquela altura, dona Miúda já estava com um pressentimento ruim.

- Bom dia, senhora! – Disse o menino, solene. – Trago uma carta para o seu marido. Ele está?

- Uma carta? Que diacho de carta é essa? Posso ver? – Dona Miúda que já não estava gostando daquele menino bem cedo de manhã na sua casa, com a história da carta, então, lhe aguçou mais ainda a curiosidade.

- Não posso lhe mostrar a carta, não, senhora. Só posso entregá-la somente em mãos próprias, ao próprio destinatário, que no caso é o senhor seu marido. Caso ele não esteja em casa, terei de esperá-lo, nem que seja por um dia inteiro. Não me foi dada a opção de voltar sem ter entregue a carta. – Disse o menino num só fôlego, circunspecto.

Dona Miúda ficou emudecida diante de tanta eloquência daquele fedelho esnobe. Ficou imaginando o que seria o diabo daquela carta. Será que o marido tinha se envolvido nalguma falcatrua? Ou então era a carta de uma amante? Também lhe passou pela cabeça que poderia ser um convite de alguém importante para uma festa, quem sabe um casamento chique da alta sociedade. Aquele menino era muito bem-educado e não se parecia, nem de longe, com nenhum dos meninos dali das redondezas. Mas era certo que o tal menino não lhe entregaria a dita carta.

- O Ildefonso, meu marido, está tomando banho. – Enfatizou dona Miúda – Vou ver se ele já terminou. Vosmicê menino aceita um cafezinho? Quer entrar um pouco? Fiz um bolo de batata-doce agorinha mesmo, quer um pedaço? – Perguntou ela.

- Infelizmente, terei que declinar de seu convite, senhora. Minha tarefa é apenas entregar essa carta ao senhor seu marido, e nada mais. Não posso aceitar nada em troca. – Disse o menino que continuava ali, em pé, impassível.

Dona Miúda suspirou e entrou, deixando a porta entreaberta. Olhou para trás e viu que o menino continuava ali, petrificado, na mesma posição. Aquilo já estava ficando esquisito, pensou. Entrou no quarto e encontrou o seu Idelfonso já vestido, a toalha em volta do pescoço, enxugando o cabelo.

- Tem um menino esquisito, metido a besta, aí fora, te procurando. Quer entregar uma carta. – Falou dona Miúda, já meio abusada com aquela história.

- Um menino? Carta para mim? Lá fora? Tem certeza? – Retrucou abalado, o seu Ildefonso.

Dona Miúda percebeu logo a mudança no semblante do marido. Já o conhecia há mais de quarenta anos e sabia quando tinha alguma coisa errada com ele. Sabia, por exemplo, só em olhar para ele, quando estava feliz ou preocupado. Sabia até quando estava mentindo. Percebeu que ele, naquele momento em que ela lhe falou do menino e da carta, como ele teria ficado bastante nervoso. O suor começou a escorrer pelo corpo e a lhe encharcar a camisa. Nem parecia que ele tinha acabado de se enxugar. Viu também quando ele se esgueirou até a porta do quarto para ver o menino que continuava lá, incólume, em posição de sentido, em frente à porta entreaberta. Viu ainda quando ele correu para o banheiro, esvaindo-se em fezes, que lhe escorria pernas abaixo. Percebeu assustada que tudo aquilo era muito mais sério do que imaginava ser e viu ainda, que aquele mau pressentimento que sentiu bem antes, estava se tornando real.

O marido saiu do banheiro já recomposto. Abraçou dona Miúda e ela teve a impressão de que ele estava bastante febril e tremia muito. Dona Miúda ia já saindo às pressas para fazer um chá de gengibre, para baixar a febre, quando ele a deteve. Agarrou-a com mão forte e foi com ela até a porta, onde esperava-o, o menino. Dona Miúda, sem entender nada, começou a sentir fraqueza nas pernas e sentou-se para não cair. O seu Idelfonso recebeu a carta, abriu-a e leu pacientemente. Leu outra vez e mais uma vez. Dona Miúda observava o marido absorto com a carta na mão, diante do menino. Devolveu o papel ao menino que deu meia volta e saiu sem olhar para trás.

- O que foi, Ildefonso? O que foi aquilo? O que tinha na carta? – Perguntou Dona Miúda, aflita, desesperada, sentada, quase desfalecendo.

- Há coisas que não se deve saber, mulher. – Disse o marido, revigorado.

Um vento forte entrou casa adentro, balouçando as cortinas. A manhã estava radiante de sol de um dia de verão. Ildefonso pegou a mulher pela mão.

- Não era a carta que eu pensei que fosse. – Disse ele, sereno, beijando a testa da esposa, atônita, perplexa e confusa. Sentou-se à mesa, como se nada tivesse acontecido.

- Vamos tomar café. – disse.




sábado, 25 de novembro de 2017

A MENINA




Um homem estava sentado no banco da praça, absorto com o seu jornal, que nem se deu conta daquela mulher que se aproximava dele, com um bebê nos braços e trazendo com ela, uma menina de pouco mais de cinco anos. A mulher tocou-lhe suavemente no ombro dele e disse em voz definhada e meio rouca:

- O senhor poderia olhar essa menina, enquanto eu vou até aquela farmácia? – Apontou para o outro lado da praça, estendendo a mão mirrada.

O homem concordou e a mulher sorriu-lhe com a face escaveirada, um sorriso trêmulo com ânsias de fadiga.

- Não demore muito, senhora. – Disse ele.

Ela apenas sorriu-lhe outra vez - um sorriso doce e breve - denotando que lhe fugiu antes do tempo, desta vida airada, a mocidade.

A menina, tímida e em silêncio, sentou-se ao lado do homem, que lhe afagou a cabeleira alourada.

- Obrigada, moço. A mamãe não demora. – Disse a menina.

O homem ficou um tanto incomodado e aflito com aquela criança sentada ao seu lado. Não era bom, nos dias de hoje, um homem com a idade dele – já perto dos sessenta – ser visto com uma menininha, sem que ela fosse aparentada dele. Já havia lido sobre casos de velhos pedófilos que se aproveitavam de crianças que brincam nas praças. Sentiu um calafrio, só de se imaginar numa situação semelhante. Olhou com o rabo do olho para ver se a menina continuava sentada ao seu lado. A menina o olhou com um singelo sorriso.

O tempo passava e a mulher não voltava. Aquela situação já estava terrivelmente incômoda. Foi quando ele tomou uma decisão de um homem decente e chamou um policial que passava por ali. O policial prontamente o atendeu.

- Senhor policial, a mãe dessa menina pediu para que eu tomasse conta dela enquanto ia até a farmácia e já se passou mais de meia hora e ela ainda não voltou. Não sei o que eu faço.– Disse o homem visivelmente aflito.

- De que menina o senhor está falando? – Perguntou o policial.

- Dessa garotinha aqui, senhor! – Apontou para a menina que permanecia sentada no banco ao seu lado.

- Não vejo nenhuma criança aí, senhor. – Disse o policial, já um pouco duvidando daquela história.

- Como o senhor não está vendo? Ela está aqui sentadinha. – Apontou para a menina que permanecia sentada no banco, com um sorrisinho maroto.

- O senhor está querendo brincar comigo, senhor? – Bravejou o policial já irritado – Que tipo de brincadeira é essa?

Quando se virou outra vez, o homem não mais viu a menina. Desculpou-se com o policial umas mil vezes, por assim dizer. Provavelmente, a mãe já teria vindo buscar a criança sem que ele notasse. Só pode ter sido isso, pensou consigo mesmo. Decidiu ir para a casa e sentiu um calafrio gélido, quase morrendo de susto, ao ver que a menina vinha atrás dele.

- Cadê sua mãe, menina? – Perguntou o homem bruscamente, visivelmente irritado.

A menina sorriu-lhe ternamente, com os olhos negros e brilhantes, a pele avermelhada por causa do sol e a cabeleira alourada, presa num laço de fita vermelha. Ela então aproximou-se dele e encaixando a sua mãozinha pequenina na mão dele, disse quase num sussurro, pondo a outra mãozinha em concha na boca:

- Agora vou morar com você.

O desgraçado empalideceu. Tentou desvencilhar-se da mão da menina, e em vez disso, sentiu um aperto forte e tenaz, agarrando-o com firmeza descomunal.

A partir dali, daquele dia, a menina não o deixou mais. Onde quer que ele fosse ou estivesse, a menina o seguia. O mais notável e assustador é que ninguém via a menina, por mais que ele mostrasse ou tirasse alguma foto. Os amigos e familiares já duvidavam de sua sanidade mental.

Varava as noites sem conseguir dormir e quando adormecia, tinha terríveis sonhos inquietantes e pesadelos intermináveis, cheios de angústias agonizantes. Muitas vezes acordava no meio da noite sobressaltado e se deparava com a menina em pé e estática ao lado de sua cama, como se fosse um fantasma, a fitá-lo insistentemente. A menina não comia, não bebia nem dormia e sequer trocava de roupa. Às vezes, ouvia a menina paralisada, fitando um ponto qualquer na parede, sussurrando palavras ininteligíveis. O mais assustador era aquele sinistro sorriso dela.

O homem começou então a definhar e adoecia visivelmente. Tinha febres e delírios constantes. Sentia-se fraco e andava como um vulto melancólico saído das profundezas do inferno. Sua magreza excessiva causava espanto e repugnância. E assim se passavam os dias longos e as noites insones.

Em torno daquele homem, eram noites após noites de angústias e sofrimentos que se acercavam sobre ele, até que um dia, um raio de sol entrou por uma fresta da janela, e de repente, ocorreu-lhe uma ideia. Era uma ideia simples, que há muito deveria ter tido. Chamou a menina e disse que iam passear no parque. A menina saltou de alegria e agarrou bem forte a mão dele. Caminharam lentamente pelo parque, até que o homem avistou um rapaz sentado em um banco lendo o jornal.

Ao vê-lo com a criança, de mãos dadas, o rapaz sorriu e acenou para a menina. O homem então se aproximou e, tocando-lhe no ombro, perguntou:

- Você poderia olhar essa menina, enquanto eu vou até aquela farmácia?

O rapaz concordou e a menina, tímida, sentou no banco ao lado dele.

O homem então saiu dali a passos largos, sem olhar para trás.



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O MILAGRE




Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olhará de volta, para dentro de ti. (Friedrich Nietzsche)





Conta-se que, há muito tempo, um homem inescrupuloso dizia ter o dom da cura.

Falava que podia curar qualquer doença e fazia disso o seu meio de vida. Tinha fama de benzedor e curador. Garantia enxotar água-nas-juntas, algueiro, alôjo e antójo, somente com um sopro. Era só fazer o sinal da cruz e salpicar umas gotas de água benta que curava barriga farosa, berruga, bicheira de vaca, bicho de pé, boqueira, bucho quebrado e caduquice. E ganhava muito dinheiro com isso.

Certo dia, porém, um espírito que andava por ali a rodeá-lo, desceu ao seu lado e falou dentro do ouvido dele com uma voz fria e metálica como aço, deixando no ar um aroma de cânfora. Quando o espírito falava, o homem dizia que tinha a impressão de que tudo ao seu redor silenciava, como que se estivesse envolto numa bolha. Também experimentou um gosto de cravo-da-índia na boca, como aquele gosto de metais, quando se vai ao dentista.

sábado, 9 de setembro de 2017

ATRAVÉS DA JANELA




Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativa - bem em frente à janela, de onde se podia ver, com folga, a praça da Matriz. O dono do bar, seu Alfredo, gostava dele. Servia-o sempre o mesmo: uma garrafa de zinebra do Conde, “Gato Preto” e uma porção de queijo com azeitonas. Como aquele horário tinha pouco movimento, ele e seu Alfredo conversavam sobre quase tudo: mulheres, futebol e política, principalmente.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO



Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário; amanhã um grande usurário; depois um perigoso revolucionário. ” E a profecia do sertanejo, feita quando o padre Cícero era um santo, realizou-se. (Manoel Bergström Lourenço Filho – in Juazeiro do Padre Cícero)



A Sedição de Juazeiro - como figura nos livros de História - foi um sangrento e cruel confronto ocorrido em 1914 entre as oligarquias cearenses e o governo federal provocado pela interferência do poder central na política estadual nas primeiras décadas do século XX. Ocorreu no sertão do Cariri, interior do Ceará, em reação à interferência do poder central contra a política do coronelismo. Sob a liderança de Floro Bartolomeu e do padre Cícero Romão Batista, um exército de jagunços, bandidos e cangaceiros derrotou as forças do governo federal, depondo Franco Rabelo. Naquela época, o padre Cícero já era idolatrado e considerado um homem santo, "fazedor de milagres".

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O CORONEL E A BARATA



Lá no sertão, naqueles tempos, tinha um coronel muito do estribado dos cobres, dono de muitas terras a perder de vista, muito proseador, sabe-tudo, bravateiro até o meio das canelas. Orgulhoso e valentão que nem o Mata-Sete. Só porque tinha dinheiro metido nos cós, ele achava que mandava em todo mundo. E mandava mesmo.

Num tinha nada que ele num soubesse. Metia o bedelho em tudo o que não lhe dizia respeito, ralhava com tudo e com todos, dava palpite até nas coisas das mulheres. Porque tem assunto de mulher que os homens num entende nem que a vaca tussa, mas o coronel, esse sim, sabia de tudo. Num tinha um assunto que ele num botasse a colher.

sábado, 20 de maio de 2017

O PADRE, O MENINO E A GARAPADA DE RAPADURA

Xilogravura encontrada na internet.



Vô-le contá um causo assucedido lá pras banda dos Inhamuns, no interior do Ceará. O causo é o siuguinte e o siuguinte é eche:

Uma feita, vinha um pade em riba duma burrinha já cansadinha da viagem. Os dois, o pade e a burra, a burrinha e o pade, viajavam debaixo dum sol que era tão quente que nem brasa acesa, que nem fornalha. 

Esbaforido pelo calor infernal, o pade viu uma casinha na bêra da istrada. Apeou da burrinha que já não aguentava mais aquela lida de levá o pade.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A SEXTA-FEIRA SANTA NA CASA DE MINHA AVÓ


Minha avó já amanhecia com a cara séria e taciturna logo pela manhã. Quem a via daquele jeito, toda acabrunhada, exigindo a obrigação do silêncio, diria que algo muito sério havia acontecido. Logo ela que sempre fora uma mulher jovial, divertida e brincalhona o tempo todo, mas na Sexta-feira Santa era para ser um dia triste.

- Mataram o Nosso Senhor! – Dizia ela solenemente encurvada, com o terço preto nas mãos trêmulas e a face confiscada por uma pronunciada e profunda melancolia.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O CABRA QUE LEVOU UM MÓI DE CHIFRE E SE AMANCEBOU-SE COM UMA MALA VÉIA




Pois é, o Chiquim de Nóca, se casou-se com uma moça vistosa! Pense numa cabôca arrumada!

Ela era gostosa mermo? Ouvi dizer.

Vixe! Marminino! Era tão boazuda, a muleca, que num tinha uma roupa que fosse que coubesse nela! Ela só vestia roupinha curta, mostrando os balengotengo! Tudo à mostra! Os zôme virava as cabeça e quase torava o percoço pru mode olhar pra danada!

sábado, 25 de março de 2017

QUANDO CHOVE NO SERTÃO



Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.


O inverno chegou.







Obs: A propósito – não sei se alguém percebeu – o entardecer descrito foi intencionalmente adaptado de José de Alencar em A Prece do romance O Guarani: …”Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.

Era Ave-Maria. Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite”!

O RETRATO

Minha tia tinha segredos. Ela guardava cuidadosamente embrulhado em um delicado tecido rendado, um retrato emoldurado dentro de um b...