quinta-feira, 16 de maio de 2013

AS BORBOLETAS

 
 
 
 
Dona Socorro todo dia cuidava do jardim. Até conversava com as flores, mudava os jarros, plantava mais uma roseira aqui, outra ali. Ralhava com as formigas. Tinha antúrios, estrelícias, girassóis, sorrisos-de-maria, boas-noites, muçambês, papoulas-dobradas, amarelas e vermelhas, jitiranas, rosas e rosas-meninas, enchendo os olhos de tantas flores e perfumes.

Aí era uma festa para as borboletas. Vinham aos montes, flutuando, de flor em flor, de rosa em rosa. Dona Socorro sabia até mesmo o nome das borboletas: Essa toda amareladinha se chama Gema. Aquela preta e laranja é a Monarca, aquela ali, pequenininha, da cor de uma onça pintada, é a Maria-boba, que não tem nada de boba. Essa branquinha aqui é a Borboleta-da-couve (E punha o dedo na borboletinha ziguezagueando pra lá e pra cá, de flor em flor.) e olha ali a Castanha-vermelha, toda serelepe! Adora a flor do maracujá! Aquela grandona, preta e amarela, é a Caixão-de-defunto. Não sei por que esse nome tão feio. Tem também essa chamada de Pingos-de-prata, que eu acho que é a mais mansinha, pois vem pousar na nossa mão, quer ver? (E mostrava a borboletinha na mão, asinhas juntas, paradas, como que pra descansar). E dona Socorro passava assim as manhãs no jardim.

Dona Socorro nem sabia que era ela, a borboleta mais bonita.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Histórias do Sertão – O Choro no Matadouro



O sertão é vasto. Perdido no meio dessa solitária vastidão, onde só se vê a caatinga, árvores secas, cipós e pedras, encontra-se o sertanejo, homem resignado com a dura sorte, rude e ao mesmo tempo sábio e paciente observador das coisas à sua volta.

O sol causticante projeta sombras enormes. O vento atiça a poeira no areal, rodopiando galhos e folhas secas, sulcando a terra, assoviando um trinado contínuo e fino, indo perder-se nas furnas das pedras do boqueirão. O mais impressionante é o azul do céu.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Histórias do sertão – O menino gazo




No sertão de antigamente não existia energia elétrica, não senhor. Quando anoitecia, acendiam-se lamparinas e lampiões de gás. E a noite era lá fora escura e estrelada, senão salpicada de vaga-lumes errantes. Ouvia-se o coaxar de sapos, grilos em canto uníssono e o farfalhar das folhas das carnaubeiras prateadas pela lua cheia.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

CAVILAÇÃO


O doutor, mestre em leis, erudito e profundo conhecedor de toda a hermenêutica do Direito Romano, da jurisprudência vigente e intérprete da Lex Duodecim Tabularum, sentou-se ofegante na poltrona, de frente para aquele homem esquisito, de tez amarelada, que exalava um odor adocicado como amêndoas em calda e tetracloreto de carbono.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O TERRORISTA


Nicodemos sempre foi um rapaz tímido, nunca teve coragem para nada e agora tinha decidido e iria fazer o que sempre sonhou desde menino: um ato terrorista.

Tinha visto a notícia dos atentados nos Estados Unidos e isso lhe deu coragem. Se aconteceu lá na cidade de Boston, por que não aqui nessa bosta de cidade onde ele morava?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

SEGREDOS




Dona Helenita, velha e dedicada secretária há mais de... Quantos anos mesmo? Trinta? Quarenta anos? Meu Deus! Quanto tempo desperdiçado sentada em sua patética e velha cadeira giratória de palhinha!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A FILHA DO CORONEL



O vaqueiro Severino estava apaixonado pela filha do coronel Zé Carneiro. O boato já corria por tudo quanto era canto. Pelo menos era isso o que o pessoal pensava. No bar de dona Rosinha, era só no que se falava.